Em uma de minhas idas ao Festival de Cannes, vi um comercial que me chamou a atenção. Um comercial cheio de citações cinematográficas. Imagens em P&B, um motorista sonolento vinha em uma estrada perigosa e quase bate de frente com um caminhão igualzinho à carreta usada pelo Spielberg em “Encurralado”. Na cena seguinte, o motorista já não agüentando mais de sono, vê a placa de um motel sob uma chuva tremenda. Ele chega mais perto e na placa está escrito “Bates Motel”. O cara arranca e anda mais um pouco até ver uma árvore fora da estrada. Ele para o carro, olha bem para a árvore e acelera o carro que bate e faz acionar o air bag. O coitado sorri, deita a cabeça no air bag com a melhor cara do mundo e, finalmente, dorme. Genial, né?
Por que me lembrei disso agora? Neste mesmo ano em Cannes, estava concorrendo um dos melhores comerciais brasileiros de todos os tempos, o “Hitler”, da W para a Folha de São Paulo.
Lembro que a gente comentava que colocar o título Hitler na ficha técnica era a mesma coisa que os portugueses fizeram ao lançar um dos filmes mais arrepiantes de Hitchcock, Psicose. Lá na terrinha, dizem que o filme se chamou “O filho que era mãe”. (Pausa: havia várias piadas sobre o mesmo tema com os portugueses. Ben Hur era O charreteiro infernal. O genial Plain Soleil, que aqui se chamou “O sol é testemunha” (houve uma refilmagem O talentoso Ripley), lá passou como “O cadáver embaixo do barco”. A saga do padrinho, adivinhe, era O Poderoso Chefão.)
Bem, mas voltando ao “O filho que era mãe”: vocês viram que um americano durante seis anos se fantasiou de mulher, botou peruca e óculos escuros e, até fingindo um tremor de mãos, falsificava a assinatura da mãe morta para faturar a previdência social da velha? Se você der uma olhada atenta na foto do filho que era a mãe, ela lembra muito o Michael Caine, disfarçado de mulher em “Vestida para matar”, do Brian de Palma, uma espécie de chupada – o cara de pau do Brian chamava de citação – no personagem do filme do Alfred. Outra coincidência: o americano se chama Thomas Parkin. Qualquer semelhança com Anthony Perkins, o filho que era mãe no Psicose, é mais do que coincidência, não acham? Ou serei eu o maluco?
por João Bosco

Caros amigos
Antes de mais saudações cinéfilas deste lado do Atlântico. Os meus parabéns pelo seu site. O cinema merece que o olhemos com bons olhos. Permita-me só uma correcção: nenhum dos títulos que refere ("O filho era a mãe", "O charreteiro infernal", "O cadáver embaixo do barco") passaram em Portugal com esse nome. O filme "Psycho", aqui em Portugal chamou-se "Psycho"; o filme "Ben-Hur", chamou-se "Ben-Hur"; o filme "O talentoso Mister Ripley", chamou-se aqui "O talentoso Mister Ripley"... Esclarecidos? Aliás, as palavras "charreteiro" e "embaixo", não existem em Portugal.
A propósito, nós, por aqui também nos rimos com algumas traduções vossas. Eu gosto sobretudo da vossa tradução de "Shane": "Os brutos também amam.".
Um abraço cordial e bons filmes.
S.L.C.
PS- E parabéns pelo cinema brasileiro, na minha modesta opinião um dos melhores do mundo. Só tenho pena que em Portugal não tenhamos os recursos para fazer uma cinematografia com a qualidade da vossa.
Passei em frente a um posto do INSS, na Barra, hoje pela manhã. Continuava fechado. Greve. Sabe porquê? Porque estão revoltados com a possibilidade de serem avaliados. Querem aumento sem necessidade de comprovação de méritos. Coitado do Thomas Parkins se fosse brasileiro.Ia penar nas mãos desses filhos da mãe.
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